A comparação que adoece: como as redes sociais viraram um espelho torto da autoestima

Poucas gerações tiveram acesso a tanta imagem de perfeição quanto a de agora. Basta abrir o celular para desfilar corpos impecáveis, viagens dos sonhos, casas organizadas e sorrisos sem defeito. O problema é que esse desfile não é neutro. Ele funciona como um espelho torto, que devolve a cada um a sensação de estar sempre atrás, sempre aquém, sempre devendo. E é dessa comparação silenciosa e constante que nasce boa parte do sofrimento emocional que se vê hoje.
O mecanismo é sutil, mas poderoso. O cérebro humano sempre se comparou aos outros, isso é natural e antigo. A diferença é a escala. Antes, a comparação se limitava a quem estava por perto. Agora, ela acontece com milhões de pessoas ao mesmo tempo, e quase sempre com a versão editada, filtrada e cuidadosamente escolhida da vida alheia. Compara-se a rotina real, com seus dias difíceis, ao melhor recorte da vida do outro, e o resultado desse jogo desigual é quase sempre a frustração.
Os efeitos aparecem no humor e na autoimagem. Ansiedade, sensação de inadequação, queda na autoestima e aquela angústia difusa de nunca ser o bastante são queixas cada vez mais comuns, especialmente entre os mais jovens, que cresceram dentro dessa lógica. A busca por validação em curtidas e comentários transforma o valor pessoal em algo instável, que sobe e desce conforme a reação dos outros, e isso é terreno fértil para o adoecimento.
Não se trata de demonizar a tecnologia nem de propor que todos abandonem as redes. Trata-se de usá-las com consciência: lembrar que quase tudo ali é vitrine, não realidade, reduzir o tempo de exposição quando ela pesa e cultivar uma vida offline que não dependa de aprovação virtual. No fim, a autoestima mais sólida é a que se constrói longe da tela, ancorada em quem a pessoa é, e não em quantos aplaudem.
Se a comparação nas redes tem gerado angústia constante, vale conversar com um profissional. O CVV oferece apoio emocional pelo telefone 188, em ligação gratuita, e pelo site cvv.org.br.

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